domingo, 15 de março de 2015

Pedra Branca

Ali estava ela, abraçando os joelhos, no centenário portal. 
Vestia o presente,
um vestido de chita, 
bebia a visão da tão antiga grande pedra envolta em brumas, 
como sempre a viu. 
Diziam-na branca, Pedra Branca. 
Nunca a tinha visto branca, 
embora lembrava-se de ter tocado o céu 
quando pisava no branco dela. 
Não sabe-se por qual mágica, 
as brumas se abriram e a luz do Sol tocou a pedra. 
Ela soltou os joelhos e abriu bem os olhos, 
a pedra era branca pela primeira vez 
neste corte da eternidade em que vivia. 
Tal qual o prisma que era tecido ao seu lado 
a luz dividiu-se e entrou pelos olhos dela, 
clareando todo seu interior para que ela pudesse sonhar de olhos abertos, 
sendo luz com a pedra e o sol. 
Sonhou então que as brumas, 
charme que o mistério faz
para revelar a luz, 
abriu-se e a pedra ficou branca por um dia todo. 
Neste dia, muitas flautas soavam, 
muitas cores dançavam, véus de muitas cores caiam
e ventos convidavam a todos a ser, estar, sentir e expressar.
Malabaristas, palhaços, pintores, atabaques, cores e cores 
diziam em harmoniosa uníssona voz: 
Véus, véus das brumas dos olhos do povo humilde, caiam...
Vejam as cores, não as dores...
Parem de andar tristes, preocupados, 
tudo é tão fugaz...
Sonhou rápido como são os sonhos acordados, 
devem ser disfarçados. 
Chamou a tecedora de filtros dos sonhos, a dona do prisma
 e lhe disse ainda assombrada: 
"Vem cá vê, a Pedra tá Branca! 
É a primeira vez que vejo Pedra Branca!"



 (Para Pamela Souza, a tecedora e a César Lemos, pelos sonhos que temos)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OM NAMAH SHIVAYA

Arco-íris em mim,
que passando por mim,
toca sem me tocar;
Translúcida água que paira colorida no ar,
Se me tocas sem tocar,
toco em ti e somos um...
Um arco-íris para cada um,
Entre os olhos...
Entre olhares...

domingo, 14 de dezembro de 2014

Lucidez (para Dante)

Quantos podem contar uma vida nova em uma mesma vida?
Nas harmônicas vencemos guerras sem perceber.
Toda tempestade passa.
Cenas são embaladas por canções que fazem tudo como é,
um sonho,
fragmento da grande realidade,
imensamente mais bonita,
inalcançável beleza fragmentada.
Parcos fragmentos captados pelas artes e pela ciência...
Milagres a cada momento que nem todos conseguem ver,
cegos de dor.
Nas harmônicas vão-se as dores como nuvens que passam,
chovem e lavam.
Puros depois de tanta chuva,
não tendo mais problemas à serem resolvidos com o sádico espelho,
criamos problemas para entreter nossas mentes avidas por solucionar.
Moinhos de vento, moinhos de vento,...
Suaves aéreas fábricas de alimento,
disfarçadas de monstros marinhos de um planeta ainda plano,
ainda sobre a mesa.
Dante, tenha uma canção para onde voltar e ser essência.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vida

Eu acalmo meu coração,
eu acredito.
Eu posso sentir a benção
que eu preciso chegando,
chegando,
chegando,
a cada respiração.
Sou um balão vivo.
Inspiro, me encho de vida.
Expiro e ainda assim: vida.
Assim seja, assim é.
Gratidão!

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dentro da Luz

Deitei-me.
Soltei-me como pequenino ser na Terra.
Cerrei meus olhos em respeito a imensidão que não posso alcançar.
Uni-me a Terra, somos uma só.
Senti-a me girando-me devagar, vagando com ela.
Olhos fechados pois abertos não podem ver.
Vi o mistério multicolor inalcançável.
O inatingível me disse que pertenço a ele,
mesmo sendo um pálido ponto azul junto com a Terra.
Que o amor a tudo permeia.
Estou dentro da Luz,
a Luz invisível que a tudo transpassa,
o escuro vácuo incluído.
Sorri porque vi que muitos outros pequeninos pontos estavam contemplando o Absurdo.
Agora rio de todo desespero de todos os desesperados.
O desespero não mora dentro da Luz.
É necessário reconhecer a nossa pequenez,
prostrar-se,
entregar-se aos olhos fechados para ver e ouvir
além do pequeno ponto que somos.
Muitos nomes são dados:
Meditar,
rezar,
orar,...
Não adianta nomes,
o que importa é o ato
e o fato
em si.
Serenos somos,
serenos,
serenos
pontos
dentro da Luz.



sábado, 8 de novembro de 2014

Crianças bobas

Nós, passarinhos, temos que dizer:
Vocês são crianças bobas.
Preocupam-se pelo pai que dorme exposto à tempestade como nós, passarinhos.
Por acaso não é, este homem que chamam de pai, mais forte que muitos de nós  passarinhos juntos?
Por acaso não é ele que nós vemos a retirar cascavéis dos pés de café?
Meninos bobos, se teu pai resolvesse fazer mal a nós, passarinhos...
No entanto, ele jamais quis nos prender.
Sim, ele dorme na chuva, como nós, passarinhos.
E ele é muito mais forte que nós, passarinhos.
Crianças bobas, deixem que a chuva o desperte no devido tempo.
Crianças bobas, parem de conversar durante o sono, preocupados.
Nós somos apenas passarinhos e cantamos na alvorada.
Vocês são crianças bobas preocupadas com a tempestade.
Crianças bobas e amadas, saibam disso e de outras coisas simples.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma poesia por dia

Imagino que tenha levado seus filhos na escola
Onde fica assustado com as crianças falando em morte
Não se preocupe
Muitos olhos zelosos por ela
Como os teus
Como os meus
Sei que tem olhado o mar
Sorrindo para o futuro
O mar te lembra de onde veio
Para onde vai
Eu teria te contado tudo
Sem tanto sofrer
Como imagino que teria contado a mim
Sem tanto sofrer
Aproveite seu quarto
Seu tatame de dormir
Todo guerreiro tem a cama que precisa
Sempre
Eu avisei, meu amor
Que bom que não me ouviu
Hoje somos belos adultos
Sonhadores
Criativos
E, sim
Observados
Esperam de nós
Sim
Mas nada mais que sermos felizes
Finalmente felizes
Somos Um
Para ajudar o tempo
A correr leve
Uma poesia por dia
A gente confia na vida

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Vou levar nossos passos

Então,
no entardecer,
você me olha com ternura,
mostra o belo dia que me deste,
me chama para caminhar contigo,
ouvindo nossas músicas
pelo velho caminho
de novas plantas rasteiras
de novas flores
e de centenárias árvores,
para agradecer a Luz e
receber a noite.
Penso na inércia,
mas seus convites sempre me fazem bem.
Rio contigo, de lado, marota
porque nossa união sempre deu certo e
temos um segredo sagrado.
Você aí e
eu aqui.
Então,
vou levar nossos passos.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Quantas luas mais
eu contemplarei
para ver-te?
Quantos outros passos mudos?
Acordo,
abro meus olhos para o dia majestoso que se levanta.
Há dias em que a angústia acorda primeiro
que a esperança.
Torna-se necessário conectar-me ao Supremo.
Os céus e a Terra mostram-me sua existência que,
de tão forte e sutil, sagrada.
Há, então, dias
em que a esperança acorda primeiro
que a angústia.
Amar assim é ter fé.
Sorrio envolvida
pela ternura Divina.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Paradoxo

Alma em movimento harmônico, 
força do âmago que dança, 
onde está minha razão? 
Perdi-me entre senoides, 
encarei o sol ardente, 
chorei pra que chovesse, 
segurei uma pedra branca, 
confundi-me entre outras cores, 
busquei-te nos meus livros 
e encontrei o vácuo que a tudo rumina 
em silêncio absoluto. 
Desconcertante silêncio que me silencia, 
o que mais tens a me dizer? 
Deixar ser e estar energia, 
não mais pensar em teorias, 
alma em movimento harmônico, 
ensinar-me isto seria matar minha poesia.