sábado, 23 de agosto de 2014

Relicário de Luz

Mudar-se.
Muda arse.
Arse?
Mudar-se:
Uma caixa vazia, relicários bem sorridentes.
Desnudar o quarto de suas marcas de alma...
É saber dançando que conhece bem pra onde vai,
Porque vai.
E quando lá estiver,
Existirá uma caixa carinhosa do Bem viver.
Será Luz
O que já é...
Relicário de Luz.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Crianças

Era uma menina com seus poucos
e intensos
cinco anos de idade.
Era, também, uma casinha com seus poucos
e intensos
três cômodos.

Havia uma cerca e,
na cerca de bambu,
havia um portal mágico
que levava ao misterioso
mundo de Sá Maria Prata.

Dentro de Sá Maria Prata existia
uma cozinha de paredes escuras
por conta da fumaça de um fogão
de lenha.

A menina só conhecia a cozinha.
Vazava pela cerca com a certeza
de que era esperada.

Sá Maria Prata
não tinha ninguém
além

da menina e a menina
não tinha irmãos.

Por isso, a velhinha
sempre a acolhia
com guloseimas da roça,

feitas por suas mãos sabidas
de tanto viver.

Por isso, a menina vazava
pela cerca.
Ávida.

Sentadas na tarpa do fogão,
comiam a vida.

Tudo isso para dizer que

quanto mais sabedoria,
mas criança se é.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pro nome


I

Eu quase posso ver você 
olhando de soslaio.
Sua dor parece insignificante, 
mas incomoda no escondido.
Olhar de soslaio é coisa de quem 
sabe o caminho.
O seu soslaio,
agora, 
é do lamento nosso.


II

Teve um tempo em que fechávamos nossos olhos 
para vermos a dança das cores.
Hoje elas dançam com nossos olhos abertos, 
catatônicos, 
imersos num silêncio paranoico.

III

Sua respiração dinamiza a brisa que
brisa tanto que vira vento que
venta tanto que viro atenta que
também faço a atmosfera respirar.

IV

Dá cá um sorriso antigo
Vem continuar a ser Terra comigo.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A menina dança



Observei um casal a dançar: 
Yin e Yang. 
Dançam sempre pela minha casa e em toda a Vida. 
Certo dia Yin sentiu Yang querendo entrar no quarto em que estava repousando, inclusive. 
Mas o causo não é esse, não. 
O causo é que Yin e Yang resolveram dançar nas cordas de um violão: 

Yin dedilhava com os seus pezinhos. 
Intentava que Yang chegasse mais perto.
Yang, parecido com o dia claro,
ora cedia a se aproximar,
ora saltava de banda. 
A dança era samba.




(Presente de aniversário para Bárbara Maria Chaves Barbosa, com carinho.)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Violeta de Outono

(Para meu amado e para Alcilene Rodrigues em sinal de Gratidão)

Esperando, eu cá vivia.
Meu endereço nas nuvens, nas árvores, nas águas,
induzindo os olhos seus.
Sentia seu vento passando em frente de casa
com querência de entrar.
Mas não entrava,
não entrava, não.
Quanto mais rondava, doce vento indeciso,
mais o tempo se fazia ver no acúmulo da poeira.
Aceitei, com uma dor sem cor, gosto ou sabor,
que não vinha.
Respirando você, te ouvi no vento a dizer
das coisas que nunca me faltarão:

Um Jardim da Fantasia,
meus três lugares,
revoada anunciando estrelas,
a fumaça da Fênix,
passos musicais na grama,
infinita matiz a ser contemplada no céu
e nas montanhas
e em ti,
anjos,
portas,
portais,
janelas,
umbrais.
 
Disse-me da existência que dança,
que não faltarão lembranças
e da poesia que embala o fluir.
Doce vento indeciso,
quanto dói em ti o querer ser brisa!
Doeu tanto que flor se fez
e entrou em minha casa trazido por mãos ternas,
inconscientes do nosso segredo.
Eu te vejo.
Está aqui.
Suas folhas tem a mesma textura
e brilho de que me lembro.
Eu te rego com água de mel.
Cuido de ti, meu amor,
todos os dias.
Sei o que fazer com uma de suas grandes verdes folhas,
que está machucada.
Partida ao meio.
Metade vida, metade morte.
A metade morte colocarei sobre a terra,
que era pó, poeira no portão.
Suas frágeis raízes se alimentarão dela 
e o viço voltará.
Suas flores são altas e fortes.
Saem do seu íntimo caule
empurrando delicada e pacientemente
suas próprias densas folhas.
 
Emergem violetas.

Está em meu quarto.
Deixo, por capricho meu,
que minhas células mortas serenem sobre ti,
como bênçãos.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Estrada de formiga

Ocultei a fascinação 
pela auto percepção 
da existência. 
Eu era fascinada, 
deslumbrada, 
seduzida por ela. 
Criança a cata de detalhes 
despercebidos pelo mundo maior, 
tão desinteressante. 
Eram descobertas grandiosas 
os vincos de uma pedra. 
Estrada de formiga. 
O mundo maior 
deu para gargalhar de mim 
criança. 
Levava-me a constatar 
que minhas preciosas descobertas 
eram antigas conhecidas e comuns 
pedras inertes, 
mortas, 
desconexas, 
soltas, 
pedras. 
Intimidador mundo maior.
Eles sabiam tanto mais sobre as pedras, 
as estradas 
e as formigas, 
que me senti envergonhada 
e tratei de aprender tudo quanto pude 
e quis 
sobre as pedras, 
as estradas 
e as formigas 
segundo o mundo maior. 
Lembro-me de uma sutil sensação 
de que tinham tudo planejado 
para algo ainda maior 
que o mundo maior. 
Envergonhei. 
Nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
eu deixei guardada, 
tão bem escondida, 
a fascinação 
pela auto percepção da existência.
Meu natural método para as minhas grandiosas descobertas era a contemplação. 
O mundo maior disse não. 
O mundo maior imperativo disse: apreenda. 
Envergonhei. 
Nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
eu deixei guardada, 
tão bem escondida, 
a contemplação.
O mundo maior cada vez mais frenético, 
intimida e impera: 
apreenda, apreenda, apreenda! 
Acho que frenética fiquei. 
Tanto que da sanidade nada saudável eu abdiquei. 
Procuro nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
a auto percepção da existência 
e a contemplação que deixei.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Silêncio e Incenso

Existe calma, o respirar calmo, mas não o sono.
Chove como se água sapateasse.
Tudo que se pode ouvir: a chuva e o respirar.
O sono, na água lá fora, não cansa de brincar.
Ela quer parar de pensar.
Dentro do silêncio do quarto,
aromas aconchegantes esperando o sono cansar,
ela sorri satisfeita mas cogita:
Por que ter hora pra acordar?
Silêncio e Incenso a envolvem no quarto.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Luciérnaga

Delicadeza deitou-se na grama 
aos pés da Grande Árvore 
que a acolheu com o cheiro fresco e úmido que emanava.

Sentiu o chamado e ali estava. 
Precisava receber a mensagem e estava ciente de que 
não seria através da linguagem usual, 
restritamente humana.

Não seria uma conversa, sabia. 
Interação, seria.

Aceitou o silêncio 
e a espera de fazer-se sensível. 
Conseguiu unir-se a Terra. 
Era terra. 
Respirava com a Terra.

Aconchegou-se dentro da terra, 
sentiu seu frescor. 
Começava a interagir com Quimera, 
da mesma forma com que um toque suave na pele 
pode tanto dizer a quem ama.

Era noite.

Delicadeza sentiu Quimera.
Delicadeza amava tanto Quimera!
Delicadeza sentiu Quimera triste.

Quimera emanava desejo de se transubstanciar para Delicadeza.
Quimera desejava ser palpável para Delicadeza.
Quimera amava Delicadeza.

quimera...

Delicadeza uniu-se a um vaga-lume 
e deixou nele amor.
Vaga-lumes concebem quimeras.

Vagou a luz, vaga-lume,
Levou o amor de Delicadeza
para Quimera.

sábado, 2 de novembro de 2013

Caleidoscópio

Duas/dois
da/na
manhã.
Percepção restrita.
Forço a vista,
vejo o tempo.
Crio a realidade.
Vai me deixar aqui.
Já é hora de você ir?
Por favor,
não vá embora.
Fique comigo
girando palavras
dentro de um caleidoscópio.
Nossa desorganização
pensada.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Vagalumes

luzes que vagam
luzes que acendem
eu queria ter
luzes
sempre acendem
e ascendem
tão simples
é sem imagem
só luz
a fonte de todas as imagens
nos eleva na magia
nos hipnotiza
e fortalece
inspira
...
..
.
expira
respira
inspira
e move.
inspira
aquece
fortalece
cura
faz fumaça
envia pro céu
move
cura
desapega

(desapego)


luz, luz, luz

Fogo Sagrado