quarta-feira, 26 de março de 2014

Violeta de Outono

(Para meu amado e para Alcilene Rodrigues em sinal de Gratidão)

Esperando, eu cá vivia.
Meu endereço nas nuvens, nas árvores, nas águas,
induzindo os olhos seus.
Sentia seu vento passando em frente de casa
com querência de entrar.
Mas não entrava,
não entrava, não.
Quanto mais rondava, doce vento indeciso,
mais o tempo se fazia ver no acúmulo da poeira.
Aceitei, com uma dor sem cor, gosto ou sabor,
que não vinha.
Respirando você, te ouvi no vento a dizer
das coisas que nunca me faltarão:

Um Jardim da Fantasia,
meus três lugares,
revoada anunciando estrelas,
a fumaça da Fênix,
passos musicais na grama,
infinita matiz a ser contemplada no céu
e nas montanhas
e em ti,
anjos,
portas,
portais,
janelas,
umbrais.
 
Disse-me da existência que dança,
que não faltarão lembranças
e da poesia que embala o fluir.
Doce vento indeciso,
quanto dói em ti o querer ser brisa!
Doeu tanto que flor se fez
e entrou em minha casa trazido por mãos ternas,
inconscientes do nosso segredo.
Eu te vejo.
Está aqui.
Suas folhas tem a mesma textura
e brilho de que me lembro.
Eu te rego com água de mel.
Cuido de ti, meu amor,
todos os dias.
Sei o que fazer com uma de suas grandes verdes folhas,
que está machucada.
Partida ao meio.
Metade vida, metade morte.
A metade morte colocarei sobre a terra,
que era pó, poeira no portão.
Suas frágeis raízes se alimentarão dela 
e o viço voltará.
Suas flores são altas e fortes.
Saem do seu íntimo caule
empurrando delicada e pacientemente
suas próprias densas folhas.
 
Emergem violetas.

Está em meu quarto.
Deixo, por capricho meu,
que minhas células mortas serenem sobre ti,
como bênçãos.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Estrada de formiga

Ocultei a fascinação 
pela auto percepção 
da existência. 
Eu era fascinada, 
deslumbrada, 
seduzida por ela. 
Criança a cata de detalhes 
despercebidos pelo mundo maior, 
tão desinteressante. 
Eram descobertas grandiosas 
os vincos de uma pedra. 
Estrada de formiga. 
O mundo maior 
deu para gargalhar de mim 
criança. 
Levava-me a constatar 
que minhas preciosas descobertas 
eram antigas conhecidas e comuns 
pedras inertes, 
mortas, 
desconexas, 
soltas, 
pedras. 
Intimidador mundo maior.
Eles sabiam tanto mais sobre as pedras, 
as estradas 
e as formigas, 
que me senti envergonhada 
e tratei de aprender tudo quanto pude 
e quis 
sobre as pedras, 
as estradas 
e as formigas 
segundo o mundo maior. 
Lembro-me de uma sutil sensação 
de que tinham tudo planejado 
para algo ainda maior 
que o mundo maior. 
Envergonhei. 
Nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
eu deixei guardada, 
tão bem escondida, 
a fascinação 
pela auto percepção da existência.
Meu natural método para as minhas grandiosas descobertas era a contemplação. 
O mundo maior disse não. 
O mundo maior imperativo disse: apreenda. 
Envergonhei. 
Nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
eu deixei guardada, 
tão bem escondida, 
a contemplação.
O mundo maior cada vez mais frenético, 
intimida e impera: 
apreenda, apreenda, apreenda! 
Acho que frenética fiquei. 
Tanto que da sanidade nada saudável eu abdiquei. 
Procuro nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
a auto percepção da existência 
e a contemplação que deixei.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Silêncio e Incenso

Existe calma, o respirar calmo, mas não o sono.
Chove como se água sapateasse.
Tudo que se pode ouvir: a chuva e o respirar.
O sono, na água lá fora, não cansa de brincar.
Ela quer parar de pensar.
Dentro do silêncio do quarto,
aromas aconchegantes esperando o sono cansar,
ela sorri satisfeita mas cogita:
Por que ter hora pra acordar?
Silêncio e Incenso a envolvem no quarto.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Luciérnaga

Delicadeza deitou-se na grama 
aos pés da Grande Árvore 
que a acolheu com o cheiro fresco e úmido que emanava.

Sentiu o chamado e ali estava. 
Precisava receber a mensagem e estava ciente de que 
não seria através da linguagem usual, 
restritamente humana.

Não seria uma conversa, sabia. 
Interação, seria.

Aceitou o silêncio 
e a espera de fazer-se sensível. 
Conseguiu unir-se a Terra. 
Era terra. 
Respirava com a Terra.

Aconchegou-se dentro da terra, 
sentiu seu frescor. 
Começava a interagir com Quimera, 
da mesma forma com que um toque suave na pele 
pode tanto dizer a quem ama.

Era noite.

Delicadeza sentiu Quimera.
Delicadeza amava tanto Quimera!
Delicadeza sentiu Quimera triste.

Quimera emanava desejo de se transubstanciar para Delicadeza.
Quimera desejava ser palpável para Delicadeza.
Quimera amava Delicadeza.

quimera...

Delicadeza uniu-se a um vaga-lume 
e deixou nele amor.
Vaga-lumes concebem quimeras.

Vagou a luz, vaga-lume,
Levou o amor de Delicadeza
para Quimera.

sábado, 2 de novembro de 2013

Caleidoscópio

Duas/dois
da/na
manhã.
Percepção restrita.
Forço a vista,
vejo o tempo.
Crio a realidade.
Vai me deixar aqui.
Já é hora de você ir?
Por favor,
não vá embora.
Fique comigo
girando palavras
dentro de um caleidoscópio.
Nossa desorganização
pensada.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Vagalumes

luzes que vagam
luzes que acendem
eu queria ter
luzes
sempre acendem
e ascendem
tão simples
é sem imagem
só luz
a fonte de todas as imagens
nos eleva na magia
nos hipnotiza
e fortalece
inspira
...
..
.
expira
respira
inspira
e move.
inspira
aquece
fortalece
cura
faz fumaça
envia pro céu
move
cura
desapega

(desapego)


luz, luz, luz

Fogo Sagrado

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Fluir do Ideal para a Alegria

O Amor que 
eu sinto por você
está transferindo-se 
a ela. 
Você não perde o Amor. 
O Amor flui 
por nós.




Dançando passa, 
perpassa, 
tange, 
como os vestígios 
da calda de um cometa
tocando a mãe Terra.












terça-feira, 3 de setembro de 2013

A cura

Tanto observo que me interiorizo.
Abrigo-me, refugio-me na calma criada. 
Criei calma em mim, 
com flores e sonhos bonitos. 
Sonhos simples. 
Casinha branca na montanha, 
onde cada passo faz nascer uma poesia.

Flores.

Deixo pegadas de amor para os outros passantes 
com esperança de semear.

Tornar o mundo mais calmo pra eu morar. 
Tornar o mundo menos hostil pra eu morar. 
Tornar o mundo mais simples pra eu morar.

Lá fora é bonito. 
Tem um céu azul que sorri. 
Antigo, 
assiste a tudo há tanto tempo.
E sorri - sábio.

O céu azul costuma me tirar de casa, 
depois de muito insistir. 
Vamos juntos sorrindo esperançosos 
de que tudo se transforme em calma e grama.

Meu mundo não tem conseguido conversar com o mundo real.
Meu refúgio mora em mim e no céu.

sábado, 10 de agosto de 2013

Sabedoria dos pés

Deixar-se levar
pela sabedoria dos pés.
Deixar-se ir.
Fui.
Segui-os.

Tirar a consciência dos passos,
é abrir a percepção de mundo
e das coisas do mundo.

Vi muitos outros passos,
mas eles eram diferentes,
pareciam ter rumo certo.

De início, meus pés também tinham rumo certo.
Rumaram para onde deviam
e depois me pediram liberdade.

Onde me levariam?

Rio. Quantas poesias nascerão deste poema?

Conheci uma senhorinha linda,
de 80 anos.
A conheci seguindo o aroma
do café da roça.
Torrado e moído em casa,
por ela mesma,
dizia.

Vi todo meu povo
nos olhos dela.

domingo, 4 de agosto de 2013

Três Vezes

Formas etéreas, efêmeras, frágeis,
esperavam no quarto,
guardadas dentro do incenso,
esperavam transcender.
Esperavam por aquela que sempre vinha...
Por vezes feliz e dançante,
outras,
absorta em qualquer sentimento cinza,
como a suave fumaça que fazia nascer,

com três sopros.
Inspirava amor, expirava gratidão.
Três vezes.

Serenava na serenidade do que transcendia.
Agradecia.

Sentimentos cor da fumaça e percepções indizíveis...
Com qual alma calma poderia partilhar
a simplicidade do rodopiar
pelo quarto
com o incenso
transcendendo?

Era cinza ser sozinha em coisa tão bonita.
Escreveu.

Com três sopros.
Inspirava amor, expirava gratidão.
Três vezes.

                                        (À Letícia Batista)